A Arte das Conexões

Rede, uma proposta de organização social.

por Moerna L. Viezzer e Ornar Ovalles - 18/11/2002

Pessoas e grupos organizam-se de diversas maneiras. Uma dessas maneiras, sobre a qual gostaríamos de aprofundar a reflexão e ampliar o debate, é a chamada Rede. Como mostra o nome, é uma organização comparável a um tecido com múltiplos fios ligados entre si por nós, que se espalham por todos os lados, sem que nenhum deles seja central. Na sociedade, os integrantes de uma rede se ligam de forma horizontal a todos os outros.

É interessante perceber o paradigma da rede como uma espécie de reatualização do antigo mito da comunidade, ou da formação de pequenas tribos na sociedade de massas. Nele, a organização mais antiga da humanidade reencontra a sociedade informatizada.

Outro tipo de organização social tem a estrutura de pirâmide, na qual as pessoas ou entidades se organizam através de níveis hierárquicos. Esta estrutura difere de uma rede por ter em seu topo um chefe responsável pela realização dos objetivos e, abaixo dele, várias instâncias intermediárias que tendem a aumentar em quantidade de pessoas, diminuindo seu poder de decisão e responsabilidade.

Em redes todos têm o mesmo poder de decisão e tudo depende de uma vontade coletiva para realizar determinado objetivo. Podemos dizer que a pirâmide imita as estruturas de riqueza e poder vigentes na sociedade em geral, enquanto a rede se assemelha mais à natureza.

Essas duas estruturas não são contraditórias, nem exclusivas, podendo ainda coexistir e se combinar de acordo com a situação ou necessidade; como em um partido político, organizado tradicionalmente em pirâmide, mas permeado por diversas redes de membros.


Participando de uma rede

Uma rede pode interligar pessoas entidades, ou ambos. Tudo depende dos objetivos estabelecidos a partir de interesses comuns ou complementares. No interior de uma rede, podem se formar sub-redes com objetivos específicos: grupos de ações, grupos de estudos e debates temáticos, ou grupos regionais. O tamanho de uma rede pode variar de uma pequena equipe a uma rede internacional com milhares de participantes. Existem até redes de redes.

Em uma rede, a participação dos indivíduos é livre e consciente. Se não houver participação, a rede não se consolida nem se mantém. Caso um participante queira propor alguma ação conjunta, esta deverá circular pela rede, sem que haja obrigatoriedade de participação dos demais. No entanto, é claro que quando um número de membros assume a rede com criatividade e capacidade de iniciativa e de atuação, cada um estará fortalecendo a organização. A rede só se move quando a realização dos objetivos propostos é considerada legítima e vital por seus participantes.

Os objetivos de uma rede podem envolver a circulação de informações, a criação de laços de solidariedade entre os participantes, a realização de ações em conjunto, entre outros.
Os participantes de uma rede podem se encontrar pessoalmente, se reunindo, sempre que considerarem necessário ou possível, para debates ou simplesmente para festejar. Cada encontro desses pode ser um elemento importante para a consolidação da rede, reforçando as relações interpessoais de amizade e estabelecendo novos vínculos. Nenhuma reunião desse tipo pode ter caráter deliberativo para o conjunto dos participantes da rede, pois só ficam vinculados a decisões aqueles que as assumem.

Uma rede está sempre aberta à entrada de novos participantes que aceitem os objetivos do grupo e as regras de intercomunicação estabelecidas. O desligamento de qualquer membro também não constitui um problema por representar a liberdade de opção de cada um.

Informação e Poder

Informação é poder. Como em uma rede o poder é horizontal e disperso pelos elos, fios e nós, as informações devem também transitar livremente. Essa é a exigência primordial para o bom funcionamento da rede. Se a estrutura é piramidal, apesar de o poder e o controle da informação ficarem centralizados e concentrados no topo, não pode haver curto-circuito na transferência vertical de informações; na estrutura em rede isso é ainda mais importante: não podem existir bloqueios para a circulação de informações.

Por essa razão, como em uma rede não exige controle ou disciplina, mas engajamento e participação, seus membros contam apenas com a lealdade de cada um para com os outros. A base de sustentação é a confiança de todos na capacidade de iniciativa de cada um, pois cada membro da organização é autônomo e responsável pela realização dos objetivos. As regras de intercomunicação estabelecidas podem e devem ser revistas à medida que a rede vai realizando seus objetivos ou definindo novos.

Ninguém delega o poder, pois ninguém o detém; ninguém decide quais informações devem ser multiplicadas, pois todos devem ter acesso a tudo evitando manipulações. Um bom exemplo de comunicação em estrutura de rede, válido para qualquer sociedade humana, é a dispersão de fofocas. Cada elo da malha social estrutura a informação recebida, corrige, amplia, aumenta um ponto e a remete a outros elos.

É preciso lembrar que o grau de democracia existente em uma rede depende da real liberdade de circulação de informação em seu interior e de sua utilização em beneficio dos objetivos comuns.

Redes e Comunicação

Novas tecnologias de comunicação - desde o correio e o telégrafo, passando por telefone/fax, até os veículos de comunicação de massas - foram tomando a estrutura de rede cada vez mais viável.

Na área educacional os computadores causaram uma verdadeira revolução, mas as mudanças ocorridas na última década já estão sendo ultrapassadas com a possibilidade de esses computadores estarem conectados em uma rede global. As diferenças entre a educação na escola e na comunidade se dissipam quando se trata de uma rede informatizada. Escolas, bibliotecas, ONGs, mestres e aprendizes ficam envolvidos em uma sala de aula virtual, sem paredes e sem fronteiras. Conferências públicas e privadas podem ser realizadas sem que as pessoas saiam de suas casas e nos horários que convierem aos participantes. É só deixar o recado, que todos podem ler de acordo com a sua conveniência e têm uma oportunidade igual de responder, assegurando a plena circulação de informações. Banco de dados nacionais e internacionais podem ser acessados e manuseados à distância.

Uma rede pressupõe, portanto, algum tipo de serviço que facilite essa circulação de informação e idéias, como, por exemplo, um secretariado, ou um conjunto de secretariados interligados. Eles funcionam como facilitadores da intercomunicação, não como dirigentes, nem como coordenadores da rede. Esses secretariados precisam ser aceitos, escolhidos e sustentados materialmente pelos membros.

A era tecnológica transformou a informação em mercadoria disponível a entidades com mais recursos; no entanto, à medida que mais e mais organizações foram integrando as redes de telecomunicações, as disparidades entre as ricas e as mais pobres vão sendo eliminadas. Toda essa tecnologia custa, mas não tanto, e está ficando cada vez mais fácil de usar e barata; para começar precisa de um computador, um moderno um software de comunicação de dados e uma linha telefônica. Já existem diversas conferências e redes formadas por educadores, especificamente em educação ambiental.
 
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