No processo de Formação de Facilitadores de Redes Sociais "Pensar e agir em rede é desafiante. Provoca, entre outras coisas, o questionamento de nossas matrizes de aprendizagem, convidando-nos a aprender algo novo, ou seja, a mudar." A formação de redes no Terceiro Setor se insere e, ao mesmo tempo, revela o intenso processo de mudanças que esta área vem vivendo, especialmente a partir da década de 90. Ou seja, muito recentemente.
Trabalhando com o desenvolvimento de grupos, organizações e redes, tenho o privilégio de conviver com pessoas que querem aprender para produzir e provocar mudanças em suas organizações. Isso porque acreditam que seu trabalho pode contribuir para uma sociedade mais justa, transformada. É com elas que estou aprendendo o que tentarei condensar neste texto.
Falo especificamente dos representantes de entidades sociais que se dispõem a participar de um Programa de Formação de Facilitadores com a intenção de formar um Grupo ou uma Rede de Organizações da Sociedade Civil (OSCs). Importante destacar que, no início, nem sempre está claro para essas entidades se o que desejam mesmo é serem uma rede.
Muitos já vêm com a crença de que sua união fortalecerá as organizações sociais. E este fortalecimento tem a representação de "trabalho com mais qualidade" - o que significa mais e melhores recursos humanos, materiais e financeiros. Acreditam que, unidos, conseguirão mais oportunidades de formação, captação de recursos e influência em políticas públicas.
Felizmente, a experiência está mostrando que eles estão certos. Mas há um caminho, por vezes longo, a percorrer...
Cenário atual
As associações e federações de entidades sociais já existem há muito tempo. No entanto, elas são fundadas em moldes muito semelhantes aos das próprias entidades, com suas estruturas piramidais (hierarquizadas), estatutos rígidos (burocratizadas) e com poucos diretores e conselheiros realmente ativos. Daí a queixa recorrente: poucos trabalham e participam ativamente; vários reclamam e criticam....
Muitas pessoas que participam dos programas que facilito já viveram e aprenderam com esta experiência e sempre chegam querendo "algo novo". Estou segura de que a organização em rede é este "novo".
Entendo as redes sociais como meta e meio de transformação porque, além de seus objetivos serem sempre transformadores, o ato de formar e fazer parte de uma rede desperta o protagonismo e, melhor ainda, "ensina" a ser facilitador do protagonismo de muita gente. Parece fácil? Mas não é... Vários estudos sobre redes trazem este ponto em comum: um dos maiores desafios das redes - senão o maior - é a mudança cultural que elas exigem. É a "mudança interior", na expressão de Chico Whitaker ,.
Se a natureza está em rede e "tudo é rede", como afirma F. Capra , por que as pessoas e as organizações não agem naturalmente em rede? Porque a estrutura piramidal está na cabeça das pessoas e nos estatutos das organizações e quando alguém começa a propôr mudanças, sempre aparece alguém com a "cabeça piramidal" para lembrar que o estatuto não permite. Já as redes criam a necessidade de aprender a pensar e agir horizontalmente, sem hierarquia. Então, ainda que óbvio, é preciso investir em pessoas. São elas que provocam as mudanças.
É por esta razão que defendo a idéia de que as redes precisam de facilitadores. Não fossem nossa recente história ditatorial, a desvitalização dos movimentos sociais e a estrutura piramidal de grande parte das organizações sociais, talvez não precisássemos de pessoas com o papel específico de facilitar o processo de formação de uma rede...
O processo de formação de facilitadores
A metodologia que venho desenvolvendo parte de pressupostos teóricos da psicologia social e de meu próprio processo de aprendizagem, provocado pelas pessoas que se dispõem a enfrentar o desafio de formar uma rede com a minha facilitação.
Essas pessoas aceitam de bom grado participar de um Programa de Formação porque gostam de aprender e acreditam que suas entidades também serão beneficiadas. Normalmente, são lideranças importantes em suas organizações, onde exercem funções de coordenação ou direção. Tanto pode ser um grupo formado especificamente para começar a rede, como pode ser uma comissão que a rede elegeu para se organizar melhor.
Um princípio norteador de meu trabalho é o de que é preciso ser grupo e não agrupamento, quando os objetivos são transformadores. A diferença entre os dois foi estabelecida por Sartre, que dizia que o agrupamento (ou série) é uma situação de passividade e impotência porque nele cada indivíduo é um número e não se importa com o outro, enquanto que no grupo cada sujeito é multiplicado pelos outros e pode interferir na História .
De acordo com Sartre, no agrupamento há objetivos comuns mas a comunicação é unilateral e não há visão crítica da realidade externa. De fato, no início do processo os representantes das organizações expressam interesses em comum, mas estão autocentrados, voltados para as suas necessidades. Por isso sua comunicação se destina a "ser escutado" e não a "escutar o outro". É um momento contraditório: embora exista um reconhecimento expresso da necessidade do outro para atingir os objetivos, resiste-se a interdependência, mesmo que implicitamente.
Para este agrupamento tornar-se um grupo, aqueles objetivos comuns e individuais precisam ser re-elaborados e passarem a ser "comuns a todos", grupais. Para isso, é necessário que as pessoas estabeleçam vínculos, condição para que haja compromisso com o grupo e pela causa escolhida por todos.
O primeiro objetivo do processo de formação de facilitadores é, portanto, que eles se tornem um grupo, porque esta vivência também os preparará para facilitarem o processo de "grupalização" de toda a rede. São, sem dúvida, dimensões diferentes: o Grupo de Facilitadores é formado por cerca de dez pessoas e a rede pode ter dezenas; os integrantes do Grupo de Facilitadores são fixos e na rede sempre há novos integrantes. Não é possível, então, pretender que na rede haja o mesmo tipo de vínculo que há entre os facilitadores. No entanto, se a rede permanecer um agrupamento, como haverá co-responsabilidade e ações em nome de uma mesma causa? Como haverá protagonismo?
Estas questões são abordadas no processo de Formação do Grupo de Facilitadores, cuja principal referência teórico-metodológica é a desenvolvida por Enrique Pichon-Rivière , que via o homem como um "ser social e historicamente determinado", transformado e transformador por meio de uma relação dialética com o mundo. Como Pichon, acredito que o processo grupal é sempre transformador e desencadeia mudanças nos âmbitos individual, grupal e social porque possibilita a aprendizagem.
Para a formação dos facilitadores adoto a técnica de grupo operativo de aprendizagem, criada por Pichon, porque ela favorece a grupalização e provoca a aprendizagem, a "apropriação ativa da realidade".
Os facilitadores aprendem em grupo o que é um processo grupal, para poder "ler" os fenômenos que acontecem na rede (especialmente nas reuniões) a partir de uma ótica diferente do senso comum. Trata-se, é claro, de um processo de desenvolvimento, que desperta ou faz crescer lideranças.
Aqui ressalto outro fundamental efeito benéfico das redes. Os vínculos que vão se estabelecendo entre os membros, incentivados pelas ações dos facilitadores, criam um clima de companheirismo que favorece a troca de experiências em um nível bem mais profundo do que o informativo, comum em reuniões. Esta é uma das diferenças positivas relatadas pelos próprios integrantes das redes: "aqui eu posso falar de minhas fraquezas porque me sinto acolhido".
Tais "fraquezas" quase sempre referem-se aos obstáculos que as lideranças encontram nas entidades ante suas propostas de mudanças. Propostas que vão surgindo porque a vivência em rede prova que a estrutura não-piramidal é viável, além de criar oportunidades de capacitação que abrem novos horizontes. É importante destacar que, ao provocar o "pensar em grupo", a estrutura em rede favorece a elaboração de novos conceitos e teorias, o que nem sempre acontece em cursos e seminários.
Então, ao mesmo tempo em que se instiga os integrantes da rede a procurar mais capacitação, incentiva-se o compartilhamento do que foi aprendido. Cria-se assim um círculo virtuoso de aprendizagem, processo vivido pelos facilitadores e replicado com toda a rede.
Etapas de trabalho
Embora o conteúdo trabalhado com cada grupo dependa de seu próprio processo, alguns pontos são comuns:
Etapa 1 : O processo de grupalização e o papel do facilitador
Etapa 2 : O contexto organizacional e a gestão participativa
Em alguns casos, nestas duas etapas apenas os facilitadores se reúnem porque ainda não se sentem preparados para exercer seu papel. Isso acontece quando um grupo menor de pessoas decide buscar capacitação para formar um grupo de entidades sociais. Em outros, já existem reuniões mensais de várias entidades e uma comissão começa o processo de formação já "em serviço".
Etapa 3 : Planejamento Estratégico
Nesta etapa, os facilitadores continuam em processo de formação, encontrando-se comigo semanal ou quinzenalmente, quando planejam e avaliam as atividades das reuniões mensais de toda a rede.
A fase de planejamento é decisiva porque nela são definidos a identidade da rede, seus projetos e dinâmica de funcionamento. Tão importante quanto o Plano de Ação resultante é o processo para elaborá-lo, porque promove a reflexão coletiva e o estreitamento dos laços entre os integrantes. Por esta razão, durante esta fase os facilitadores preparam atividades que favoreçam o conhecimento, o diálogo e a troca entre os membros.
As decisões nunca acontecem por meio de votações mas sim por meio de um processo que não anula as diferenças, aproveitando a diversidade de opiniões para convergir em objetivos comuns. A definição da causa da rede - que pode ser expressada por meio de missão e visão de futuro ou de uma idéia-força - é o resultado deste processo dialético. A escolha do nome e da identidade visual (logo) também.
Etapa 4 : Implementação do Plano de Ação
As redes com as quais venho trabalhando têm decidido formar "Grupos de Ação" ou "Grupos por Ação" para realizar suas ações. No primeiro caso, cada grupo fica voltado para uma área de atividades (por exemplo: Comunicação, Capacitação, Recursos e Políticas Públicas) e todos interagem nos mesmos projetos. No segundo caso, são formados grupos para desenvolver cada um dos projetos em todos os seus aspectos. Cada novo integrante da rede adere a um dos grupos.
Cada um dos grupos sempre tem pelo menos um facilitador, que propõe ferramentas para a organização das ações, promove a participação democrática e, principalmente, ajuda o grupo a não perder os objetivos da rede de vista. Os facilitadores continuam tendo reuniões de planejamento e avaliação, quando suas ansiedades são compartilhadas e seus eventuais conflitos são esclarecidos, com a minha mediação. Alguns Grupos de Facilitadores já foram renovados em parte ou totalmente, e a integração dos novos membros, que foram escolhidos pela rede, foi um processo rápido e natural.
Os desafios
1. A falta de vivência democrática dos membros da rede desafia os facilitadores permanentemente, que sofrem com os momentos de apatia nas reuniões mensais e com a lentidão para a execução dos projetos. Por isso, eles precisam de formação continuada.
2. A intercomunicação, condição para ser rede, tem sido um processo difícil. As reuniões das redes são mensais e no período entre elas seria preciso ter canais eficazes para "todos saberem de tudo". Sem dúvida, a Internet é o melhor meio para promover esta comunicação, mas várias entidades nem têm um computador que comporte os programas necessários. E o principal: muitos membros ainda não sabem utilizar os recursos do computador, incluindo a Internet. A solução seria equipar e capacitar, mas as redes têm encontrado dificuldade para conseguir financiamento para este tipo de projeto.
3. A articulação com outros setores não tem sido um processo natural. São redes de OSCs, é verdade, mas sabem a necessidade de estar em rede com outros atores para atingir seus objetivos transformadores. Para tal, um plano de mobilização precisa ser desenvolvido com apoio técnico especializado em comunicação para mobilização.
4. A entrada de novos membros também tem sido discutida pelas redes, que não querem fechar o grupo mas sim encontrar formas simples e agradáveis de incluí-los. Mais uma vez, a solução pode ser assessoria em comunicação.
5. A necessidade de institucionalização sempre acaba entrando em pauta, principalmente no início, porque as pessoas duvidam de que será possível haver comprometimento sem normas e regras. É preciso refletir sobre o instituído porque ele engessa e conduz às armadilhas da hierarquia e da burocracia. As redes podem ter um movimento instituinte, com acordos e estratégias de organização que sempre podem mudar.
6. Diretamente relacionado a esse último desafio vem o da sustentabilidade. Como gerar renda em rede? Como conseguir financiamento para os projetos de uma rede, já que ela não é juridicamente constituída? Penso que tal desafio tem que ser compartilhado com os financiadores, que precisam discutir esta questão já que a maioria parece favorável à formação de redes. As redes que acompanho estão pesquisando alternativas possíveis para superar este desafio sem se descaracterizarem...
Notas:
O autor usa esta expressão no vídeo "Redes - Conversando com Chico Whitaker", Paulinas Multimídia - www.paulinas.org.br
CAPRA, Fritjof. A teia da Vida, Ed. Cultrix: São Paulo, 1996
SARTRE, J. Paul. Crítica da Razão Dialética, Ed. Dp&a, 2002
PICHON-RIVIÈRE, E. O Processo Grupal. Ed. Martins Fontes: São Paulo, 1986
Quatro grupos com quem trabalho tiveram a iniciativa de procurar o Instituto C&A para a formação de um Grupo Associativo (nomenclatura do Instituto), que financiou a minha consultoria.


