Atualmente presidente da Associação de Biologia Tropical e Conservação (Association for Tropical Biology and Conservation) e membro do Instituto Smithsoniano de Pesquisas Tropicais, no Panamá, Laurance sempre foi especialmente interessado em florestas tropicais, principalmente por estarem entre os ecossistemas com maior diversidade biológica e, ao mesmo tempo, mais ameaçados do planeta.
Laurance já trabalhou em vários zoológicos na juventude, estudou impactos da fragmentação florestal em mamíferos tropicais e aspectos do desmatamento e uso do solo. Hoje, afirma que trabalha com qualquer coisa: árvores, mamíferos, aves, anfíbios, efeito do aquecimento global no planeta. No entanto, sempre com um foco em comum: a conservação. “Eu acredito muito que biólogos de conservação têm que ser ativos conservacionistas também”, declara.
Em entrevista à Fundação O Boticário, Laurance conta como nasceu o interesse pela conservação da natureza, os desafios que já enfrentou e suas expectativas para o VI Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, no qual ministrará a conferência Mudanças Climáticas e seus Efeitos sobre a Biodiversidade Mundial.
Fundação O Boticário - Nas suas lembranças, quando começou seu interesse pela natureza e como ela o inspirou a tornar-se um aliado em sua defesa?
William Laurance - Na verdade, eu fiquei interessado por natureza quando era muito novo, com uns 11 ou 12 anos de idade. Li um livro chamado “Rascal”, sobre um garoto que tinha um guaxinim de estimação. Depois li uma porção de livros de Gerald Durrell, naturalista britânico que viajou pelo mundo coletando animais para zoológicos.
Fui fisgado – já era um biólogo ou aspirante a biólogo desde então.
Fundação O Boticário - Proteger a natureza é ir na contra-mão da economia mundial. Em sua opinião, como se constrói a possibilidade de coexistência entre desenvolvimento e conservação?
William Laurance - Não acho que será fácil, porque realmente há um conflito entre consumo, riqueza e natureza. O que eu realmente posso notar é que nós devemos seriamente reduzir o tamanho da nossa população.
Quando meu avô era garoto, havia um bilhão de pessoas no planeta; hoje já há quase sete bilhões. E fazemos mais uso de energia e recursos per capita do que as pessoas faziam naquela época. Com o estilo de consumo e pressão que nós estamos colocando no mundo, é alguma surpresa termos tantos problemas ambientais?
Fundação O Boticário - O que você já viu de positivo nesse sentido?
William Laurance - Eu vejo dois aspectos positivos dentre muitos negativos. Primeiramente, os povos estão mais cientes de problemas ambientais agora do que há 20 anos. Em segundo lugar, nossa agricultura está ficando consideravelmente mais eficiente, o que significa podermos produzir mais alimento por hectare.
Fundação O Boticário - Qual o seu papel nessa história, seus desafios pessoais e profissionais diante da conservação?
William Laurance - Meu foco está na conservação de ecossistemas tropicais. Estou interessado em promover mudanças no mundo real. Meu maior desafio, suponho, é que cada dia tem somente 24 horas. Trabalho muito (demasiadamente, de acordo com minha esposa), mas há sempre novos desafios a enfrentar.
Fundação O Boticário - As unidades de conservação serão os oásis do futuro? Como estimular governos e sociedade a tomarem para si a responsabilidade de cuidar dessas áreas hoje?
William Laurance - Eu espero que venham a ser oásis. Várias áreas protegidas na verdade não estão muito bem protegidas. Algumas estão sendo seriamente invadidas por madeireiros, caçadores e exploradores, por exemplo - isto não é incomum na Amazônia.
Acho que seremos capazes de utilizar créditos de carbono para aprimorar a gestão de algumas áreas protegidas. Os maiores problemas são recursos e vontade política. A maioria dos governos possui leis muito boas, mas geralmente a cobrança por seu cumprimento é muito menor do que deveria ser.
Fundação O Boticário - Que conselho você daria para que não desanimemos diante de tantos interesses contrários à conservação?
William Laurance - Basta pensar em seus filhos e netos. O que você está fazendo é para eles. E não é impossível - de modo nenhum. Nós ganhamos batalhas de conservação o tempo todo, e perdemos outras. Quanto mais lutarmos, melhor será nosso futuro.
Fundação O Boticário - Que expectativa você tem para o Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação?
William Laurance - O Brasil é um dos países mais importantes do mundo, em questão de biodiversidade. Eu penso que o congresso será um fórum muito relevante para aprender-se mais sobre os desafios que enfrentam as áreas protegidas do Brasil e da América Latina.





